realizou uma experiência de psicologia social. Deixou duas viaturas
abandonadas na via pública, duas viaturas idênticas, da mesma marca,
modelo e até cor. Uma deixou em Bronx, na altura uma zona pobre e
conflituosa de Nova York e a outra em Palo Alto, uma zona rica e
tranquila da Califórnia.
Duas viaturas idênticas abandonadas, dois bairros com populações muito
diferentes e uma equipa de especialistas em psicologia social estudando
as condutas das pessoas em cada sítio.
Resultou que a viatura abandonada em Bronx começou a ser vandalizada em
poucas horas. Perdeu as rodas, o motor, os espelhos, o rádio, etc.
Levaram tudo o que fosse aproveitável e aquilo que não puderam levar,
destruíram. Contrariamente, a viatura abandonada em Palo Alto manteve-se
intacta.
É comum atribuir à pobreza as causas de delito.
Atribuição em que coincidem as posições ideológicas mais conservadoras,
(da direita e esquerda). Contudo, a experiência em questão não
terminou aí, quando a viatura abandonada em Bronx já estava desfeita e a
de Palo Alto estava há uma semana impecável, os investigadores partiram
um vidro do automóvel de Palo Alto.
O resultado foi que se desencadeou o mesmo processo que o de Bronx, e o
roubo, a violência e o vandalismo reduziram o veículo ao mesmo estado
que o do bairro pobre.
Porquê que o vidro partido na viatura abandonada num bairro supostamente
seguro, é capaz de disparar todo um processo delituoso?
Não se trata de pobreza. Evidentemente é algo que tem que ver com a
psicologia humana e com as relações sociais.
Um vidro partido numa viatura abandonada transmite uma ideia de
deterioração, de desinteresse, de despreocupação que vai quebrar os
códigos de convivência, como de ausência de lei, de normas, de regras,
como que vale tudo. Cada novo ataque que a viatura sofre reafirma e
multiplica essa ideia, até que a escalada de actos cada vez piores, se
torna incontrolável, desembocando numa violência irracional.
Em experiências posteriores (James Q. Wilson e George Kelling),
desenvolveram a 'Teoria das Janelas Partidas', a mesma que de um ponto
de vista criminalístico, conclui que o delito é maior nas zonas onde o
descuido, a sujidade, a desordem e o maltrato são maiores.
Se se parte um vidro de uma janela de um edifício e ninguém o repara,
muito rapidamente estarão partidos todos os demais. Se uma comunidade
exibe sinais de deterioração e isto parece não importar a ninguém, então
ali se gerará o delito.
Se se cometem 'pequenas faltas' (estacionar-se em lugar proibido,
exceder o limite de velocidade ou passar-se um semáforo vermelho) e as
mesmas não são sancionadas, então começam as faltas maiores e logo
delitos cada vez mais graves. Se se permitem atitudes violentas como
algo normal no desenvolvimento das crianças, o padrão de
desenvolvimento será de maior violência quando estas pessoas forem
adultas.
Se os parques e outros espaços públicos deteriorados são
progressivamente abandonados pela maioria das pessoas (que deixa de sair
das suas casas por temor aos gangs), estes mesmos espaços abandonados
pelas pessoas são progressivamente ocupados pelos delinquentes.
A Teoria das Janelas Partidas foi aplicada pela primeira vez em meados
da década de 80 no metro de Nova York, o qual se havia convertido no
ponto mais perigoso da cidade. Começou-se por combater as pequenas
transgressões: graffitis deteriorando o lugar, sujidade das estacões,
ebriedade entre o público, evasões ao pagamento de passagem, pequenos
roubos e desordens. Os resultados foram evidentes. Começando pelo
pequeno conseguiu-se fazer do metro um lugar seguro.
Posteriormente, em 1994, Rudolph Giuliani, mayor de Nova York, baseado
na Teoria das Janelas Partidas e na experiência do metro, impulsionou
uma política de 'Tolerância Zero'.
A estratégia consistia em criar comunidades limpas e ordenadas, não
permitindo transgressões à Lei e às normas de convivência urbana.
O resultado prático foi uma enorme redução de todos os índices criminais
da cidade de Nova York.
A expressão 'Tolerância Zero' soa a uma espécie de solução autoritária e
repressiva, mas o seu conceito principal é muito mais a prevenção e
promoção de condições sociais de segurança. Não se trata de linchar o
delinquente, nem da prepotência da polícia, de facto, a respeito dos
abusos de autoridade deve também aplicar-se a tolerância zero.
Não é tolerância zero em relação à pessoa que comete o delito, mas
tolerância zero em relação ao próprio delito.
Trata-se de criar comunidades limpas, ordenadas, respeitosas da lei e
dos códigos básicos da convivência social humana.
(enviado por minha amiga Glo)
13 comentários:
Muito interessante!
o metro do Rio, quando inaugurou fez isso; se havia um banco riscado tiravam o carro de circulação para consertar, não sei se ainda faz.
É o que vemos aqui no Brasil.
Todo mundo faz, por que eu não vou fazer?
Ou, se alguém comete uma "pequena" desonestidade: O que tem isso, num país em que se roubam milhôes?
Caso típico do cocô de cachorro, uma das poucas normas de limpeza que "pegaram". E como praticamente não há mais cocô de cachorro nas calçadas, qualquer um sentiria vergonha de não recolher também o do seu.
Texto interessante.
O metrô de São Paulo é um dos lugares mais limpos e seguros que conheço. Ouvi falar que sua política era a seguinte: quando um assento era vandalizado por um passageiro, esse mesmo assento era então imediatamente substituído por um novo em folha. As inscrições em diversos lugares eram apagadas antes de completar um dia de idade. Parece que a psicologia por trás disso era mostrar ao vândalo que não adiantava vandalizar, pois o quebrado seria consertado, sem dúvida alguma. E funcionou.
Agora, cá entre nós, já está na hora de começar a multar as pessoas que jogam lixo no chão.
Bem interessante Cesar essa teoria... No metrô de NY vi muita sujeita e pichação.. Já tem alguns anos que não ando por lá.. Pode ser que alguma coisa mudou .. Aqui no Rio com essa extensão do metrô pra Ipanema, não andei ainda mas pelo que ouvi dizer tá feia a coisa.. O suburbio todo invadindo ...
O metrô que conheço mais civilizado são os do Canadá.. Dá até gosto de andar.. Nada parecido com NY e Rio que conheço muito bem!!!
NY é dos piores que conheci, não só pela sujeira como pela falta de informação. Era o único onde 2 trens, com destino diferente, paravam na mesma plataforma (estou falando de Times Square) para quem não conhece a cidade é o inferno - depois de muito me perder descobri que velhinhas, negras, eram a melhor fonte de informação. Agora no Rio resolveram copiar o mal feito com esse trem da Pavuna chegando a Ipanema.
Até agora não entendi direito como funciona essa coisa.
Mas o pior de tudo é que certas estações estão funcionando sem o ar condicionado. E como muitas delas são escavadas na pedra, muito abaixo da rua, o calor fica insuportável.
Cesar, eu queria ler mas, sei lá por quê, a fonte do texto dificulta tudo. Você consegue mudar? Ou é o meu sistema mac que alterou tudo?
Pra mim o que dificulta é ter que ficar driblando aquele sol para que não fique em cima das letras.
ihh... agora não aparecem nem o fundo nem o texto! e nem o redixote do César.
Ana, pode ser a configuração do seu browser (Safari?). No Firefox uso: serif 16; codificação padrão Ocidental (ISO-8859-1); idioma preferencial [pt-br].
se ninguém mais esta tendo problema, só pode ser sua configuração.
Tem razão: fui às preferências e troquei as fontes, que já tinham vindo definidas, para Arial. Agora tá tudo bem e leio tudim ;-)
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