trecho do pronunciamento do senador Jefferson Perez (para mim o político mais ético e coerente da atualidade) no Senado, em 30/08, mesmo dia em que Wagner Tiso escrevia no O Globo tentando explicar o inexplicável:
Estamos aqui no
faz-de-conta. Como disse o Ministro Marco Aurélio, este é o País do
faz-de-conta. Estamos fingindo que fazemos uma sessão do Senado, estamos em casa
sem trabalhar. Estou em Manaus há quase um mês, recebendo, sem fazer nada - para
o Congresso Nacional, pelo menos. Como se ter animação em um País como este com
um Presidente que, até poucos meses atrás, era sabidamente - como o é - um
Presidente conivente com um dos piores escândalos de corrupção que já aconteceu
no Brasil, e este Presidente está marchando para ser eleito, talvez, em primeiro
turno? É desinformação da população? Não, não é. Se fizermos uma enquete em
qualquer lugar deste País, todos concordarão, ou a grande maioria, que o
Presidente sabia de tudo. Então, votam nele sabendo que ele sabia. A crise ética
não é só da classe política, não, parece que ela atinge grande parte da
sociedade brasileira. Ele vai voltar porque o povo quer que ele volte.
Democracia é isso. Curvo-me à vontade popular, mas inconformado. Esta será uma
das eleições mais decepcionantes da minha vida. É a declaração pública, solene,
histórica do povo brasileiro de que desvios éticos por parte de governantes não
têm mais importância. Isso vem até da classe dos intelectuais, dos artistas. Que
episódio deplorável aquele que aconteceu no Rio de Janeiro semana passada!
Artistas, numa manifestação de solidariedade ao Presidente, com declarações
cínicas, desavergonhadas! Um compositor
dizer que "política é isso mesmo, fez o que deveria fazer", o outro dizer que
"política é meter a mão na 'm'"! Um artista, em qualquer país do mundo, é a
consciência crítica de uma nação. Aqui é essa, é isso que é a classe artística
brasileira, pelo menos uma grande parte dela, é o povo conivente com
isso.