sábado, maio 08, 2010

uma executiva no Céu

UMA EXECUTIVA NO CÉU - Max Gehringer

Foi tudo muito rápido. A executiva bem-sucedida sentiu uma pontada no peito, vacilou, cambaleou. Deu um gemido e apagou. Quando voltou a abrir os olhos, viu-se diante de um imenso portal. Ainda meio zonza, atravessou-o e viu uma miríade de pessoas. Todas vestindo  cândidos camisolões e caminhando despreocupadas. Sem entender bem o que estava acontecendo, a executiva bem-sucedida abordou  um dos passantes :

- Enfermeiro, eu preciso voltar urgente para o meu escritório, porque  tenho  um meeting importantíssimo.  Aliás, acho que fui trazida para  cá por  engano, porque meu convênio médico é classe A , e isto aqui está  me parecendo mais um pronto-socorro.  Onde é que nós estamos?

   - No céu.

   - No céu?...

   - É.  Tipo assim, o céu.  Aquele com querubins voando e coisas do gênero.

    - Certamente.  Aqui todos vivemos em estado de gozo permanente.

Apesar das óbvias evidências (nenhuma poluição, todo mundo sorrindo,  ninguém usando telefone celular), a executiva bem-sucedida custou um   pouco  a admitir que havia mesmo apitado na curva.  Tentou então o plano B: convencer o interlocutor, por meio das infalíveis técnicas avançadas   de  negociação, de que aquela situação era inaceitável. Porque, ponderou, dali  a uma semana ela iria receber o bônus anual, além de estar fortemente cotada para assumir a posição de presidente do conselho de   administração  da  empresa.  E foi aí que o

interlocutor sugeriu:

- Talvez seja melhor você conversar com Pedro, o síndico.

- É?  E como é que eu marco uma audiência?  Ele tem secretária?

- Não, não.  Basta estalar os dedos e ele aparece.

- Assim?  (...)

- Pois não?

A executiva bem-sucedida quase desaba da nuvem.  À sua frente, imponente,  segurando uma chave que mais parecia um martelo, estava o próprio Pedro. Mas, a executiva havia feito um curso intensivo de approach para

situações  inesperadas e reagiu rapidinho:

- Bom dia.  Muito prazer.  Belas sandálias.  Eu sou uma executiva bem-sucedida e...

- Executiva...  Que palavra estranha.  De que século você veio?

- Do 21.  O distinto vai me dizer que não conhece o termo "executiva"?

- Já ouví falar.  Mas não é do meu tempo.

Foi então que a executiva bem-sucedida teve um insight. A máxima autoridade  ali no paraíso aparentava ser um zero à esquerda em modernas técnicas de  gestão empresarial.  Logo, com seu brilhante currículo tecnocrático, a  executiva poderia rapidamente assumir uma posição hierárquica, por assim  dizer, celestial ali na organização.

- Sabe, meu caro Pedro.  Se você me permite, eu gostaria de lhe fazer uma  proposta.  Basta olhar para esse povo todo aí, só batendo papo e andando  a  toa, para perceber que aqui no Paraíso há enormes oportunidades para dar  um  upgrade na produtividade sistêmica.

- É mesmo?

- Pode acreditar, porque tenho PHD em reengenharia. Por exemplo, não vejo  ninguém usando crachá ..  Como é que a gente sabe quem é quem aqui, e  quem  faz o quê?

- Ah, não sabemos.

- Headcount, então, não deve constar em nenhum versículo, correto?

- Hã?

- Entendeu o meu ponto?  Sem controle, há dispersão.  E dispersão gera  desmotivação. Com o tempo isto aqui vai acabar virando uma anarquia.  Mas nós dois podemos consertar tudo isso rapidinho implementando um simples programa de targets individuais e avaliação de performance.

- Que interessante...

- Depois, mais no médio prazo, assim que os fundamentos estiverem sólidos  e  o pessoal começar a reclamar da pressão e a ficar estressado, a gente  acalma a galera bolando um sistema de stock option, com uma campanha  motivacional impactante, tipo: " O melhor céu da América Latina".

- Fantástico!

- É claro que, antes de tudo, precisaríamos de uma hierarquização de um  organograma funcional, nada que dinâmicas de grupo e avaliações de perfis  psicológicos não consigam resolver.

- Aí, contrataríamos uma consultoria especializada para nos ajudar a definir as estratégias operacionais e estabeleceríamos algumas metas factíveis de leverage, maximizando, dessa forma, o retorno do investimento  do Grande Acionista... Ele existe, certo?

 - Sobre todas as coisas .

 - Ótimo.  O passo seguinte seria partir para um downsizing progressivo,  encontrar sinergias high-tech, redigir manuais de procedimento, definir o  marketing mix e investir no desenvolvimento de produtos alternativos de  alto valor agregado.  O mercado telestérico por exemplo, me parece  extremamente atrativo.

- Incrível!

- É óbvio que, para conseguir tudo isso, nós dois teremos que nomear um  Board de altíssimo nível. Com um pacote de remuneração atraente, é claro, coisa assim de salário de  seis dígitos e todos os fringe benefits e mordomias de praxe.  Porque,  agora falando de colega para colega, tenho certeza de que você vai  concordar comigo, Pedro. O desafio que temos pela frente vai resultar em um turnaround radical.

- Impressionante !

- Isso significa que podemos partir para a implementação?

- Não.  Significa que você terá um futuro brilhante se for trabalhar com  o nosso concorrente. Porque você acaba de descrever, exatamente, como funciona o Inferno...

   Autor: Max Gehringer (Revista Exame)

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PS - ainda bem que me livrei disso!!!!!!!!!!!

(enviado por meu amigo Garoto)