terça-feira, setembro 02, 2008

REDAÇÃO DE ALUNA DA UFPE

Redação feita por uma aluna do curso de Letras, da UFPE   Universidade Federal de Pernambuco (Recife), que venceu um concurso interno promovido pelo professor titular  da cadeira de Gramática Portuguesa. Leiam até o final, é muito legal!

Redação:

Era a terceira vez que aquele substantivo e aquele artigo se encontravam no elevador. Um substantivo masculino, com um aspecto plural, com alguns anos bem vividos pelas preposições da vida. E o artigo era bem definido, feminino  singular: era ainda novinha, mas com um maravilhoso predicado nominal.

Era ingênua, silábica, um pouco átona, até ao contrário dele: um sujeito  oculto, com todos os vícios de linguagem, fanáticos por leituras e filmes  ortográficos. O substantivo gostou dessa situação: os dois sozinhos, num  lugar sem ninguém ver e ouvir. E sem perder essa oportunidade, começou a se  insinuar, a perguntar, a conversar.

O artigo feminino deixou as reticências de lado, e permitiu esse pequeno índice. De repente, o elevador pára, só com os dois lá dentro: ótimo, pensou  o substantivo, mais um bom motivo para provocar alguns sinônimos. Pouco  tempo depois, já estavam bem entre parênteses, quando o elevador recomeça a  se movimentar: só que em vez de descer, sobe e pára justamente no andar do  substantivo. Ele usou de toda a sua flexão verbal, e entrou com ela em seu  aposto.
 Ligou o fonema, e ficaram alguns instantes em silêncio, ouvindo uma  fonética clássica, bem suave e gostosa. Prepararam uma sintaxe dupla para  ele e um hiato com gelo para ela. Ficaram conversando, sentados num vocativo  quando ele começou outra vez a se insinuar.

Ela foi deixando, ele foi usando seu forte adjunto adverbial, e rapidamente  chegaram a um imperativo, todos os vocábulos diziam que iriam terminar num  transitivo direto.

Começaram a se aproximar, ela tremendo de vocabulário, e ele sentindo seu  ditongo crescente: se abraçaram, numa pontuação tão minúscula, que nem um  período simples passaria entre os dois. Estavam nessa ênclise quando ela  confessou que ainda era vírgula; ele não perdeu o ritmo e sugeriu uma ou  outra soletrada em seu apóstrofo. É claro que ela se deixou levar por essas  palavras, estava totalmente oxítona às vontades dele, e foram para o comum  de dois gêneros.

Ela totalmente voz passiva, ele voz ativa. Entre beijos, carícias,  parônimos e substantivos, ele foi avançando cada vez mais: ficaram uns  minutos nessa próclise, e ele, com todo o seu predicativo do objeto, ia  tomando conta.

Estavam na posição de primeira e segunda pessoa do singular, ela era um  perfeito agente da passiva, ele todo paroxítono, sentindo o pronome do seu  grande travessão forçando aquele hífen ainda singular. Nisso a porta abriu  repentinamente. Era o verbo auxiliar do edifício. Ele tinha percebido tudo,  e entrou dando conjunções e adjetivos nos dois, que se encolheram  gramaticalmente, cheios de preposições, locuções e exclamativas. Mas ao ver aquele corpo jovem, numa acentuação tônica, ou melhor, subtônica, o verbo  auxiliar diminuiu seus advérbios e declarou o seu particípio na história.

 Os dois se olharam, e viram que isso era melhor do que uma metáfora por todo  o edifício.  O verbo auxiliar se entusiasmou e mostrou o seu adjunto  adnominal. Que loucura, minha gente. Aquilo não era nem comparativo: era um  superlativo absoluto. Foi se aproximando dos dois, com aquela coisa  maiúscula, com aquele predicativo do sujeito apontado para seus objetos. Foi  chegando cada vez mais perto, comparando o ditongo do substantivo ao seu  tritongo, propondo claramente uma mesóclise-a-trois. Só que as condições  eram estas: enquanto abusava de um ditongo nasal, penetraria ao gerúndio do  substantivo, e culminaria com um complemento verbal no artigo feminino.

O substantivo, vendo que poderia se transformar num artigo indefinido  depois dessa, pensando em seu infinitivo, resolveu colocar um ponto final na  história: agarrou o verbo auxiliar pelo seu conectivo, jogou-o pela janela e  voltou ao seu trema, cada vez mais fiel à língua portuguesa, com o artigo  feminino colocado em conjunção coordenativa conclusiva.

(enviado por meu amigo Garoto)

Um comentário:

Sandra Miranda disse...

muito legal, haja criatividade. mesóclise-a-trois... he he he