segunda-feira, junho 25, 2007

faz sentido

deu no  NoMínimo

Tempos talibãs
O Brasil vive uma fase curiosa. Finalmente tem um presidente que veio da pobreza, e isso deixa todo mundo aliviado. A cada erro de português de Lula, os brasileiros, do Vale do Jequitinhonha ao Morumbi, dão um sorriso triunfante: o povo chegou ao poder.
É claro que ainda existem elites material e culturalmente abastadas, e isso é desconfortável. Mas aí também a coisa está em mutação. Há uma nova elite se afirmando, aquela representada por gente como Silvinho Pereira, Delúbio Soares – República de Osasco e adjacências, gente que se ufana de ter se graduado na universidade e continuar ignorando o plural.
Os companheiro sociólogo estão certo. Agora todo mundo somos igual.
Essa obsessão pela igualdade ao rés-do-chão vai produzindo algumas pérolas. Se a carga tributária esfola os “mais ricos” (que às vezes ganham dois mil reais por mês), o Brasil comemora a redução da desigualdade. E culturalmente, parece que estaremos felizes no dia que a máxima erudição for uma metáfora futebolística envolvendo o Corinthians.
É essa a impressão que se tem diante da notícia de que o governo federal vai tirar do ar o portal Domínio Público, por insuficiência de acessos. Ali se pode ler de graça Shakespeare em português, tudo de Machado de Assis, Fernando Pessoa, Joaquim Nabuco, e por aí vai.
Pensando bem, faz sentido. Pra que isso tudo? Você se sente bem lendo que “O coração, se pudesse pensar, pararia” (Livro do Desassossego) enquanto há milhões de brasileiros analfabetos por aí? Não é justo.
Melhor tirar logo o Domínio Público do ar. Se não podemos todos nos igualar em Fernando Pessoa, nos igualemos na ignorância. Que alívio.
Publicado por Guilherme Fiuza

5 comentários:

Naza Barcellos disse...

Essa é a pior parte..rsrsrs..a gente estuda tanto para "semos igual" (não sou a favor de discriminação, mas dói o ouvido;o)

Graca Almeida disse...

É só mais um hoax, César. Já tem até desmentido oficial, está no jornal de hoje. Nessa, o Fiúza vacilou...

Ricardo C. disse...

Vacilou mesmo, Graça. Eu mesmo já repassei esse desmentido para amigos faz mais de um ano... Deve ser o efeito do fim do NoMínimo, o Fiúza deve estar triste demais e não teve energia pra conferir a veracidade da notícia...

Sonia SantAnna disse...

Assim como eu, que, apesar disso, sou considerada elite porque falo bom português e afirmo que Educação, e não bolsa-família e cotas, são a única maneira do povo verdadeiramente ascender socialmente.
O aviso sobre o fechamento do Domínio Público ser um hoax está no O Globo de hoje, caderno Info, pág. 4, sob o título Netiqueta.

cesar cunha disse...

tem mais essa, do mesmo Fiuza, na mesma página:
De Lula para Lula

Todos se lembram que a palavra privatização foi decisiva na campanha presidencial. A palavra, não. O dogma. Em pleno 2006, o Brasil discutiu privatização com a paixão dos anos 80, quando Brizola ensinava ao seu rebanho que o que era do Estado era “nosso”, e o que era privado era “deles”.

Por uma dessas misturas mágicas de distração com ignorância, a privatização ressurgiu na disputa entre Lula e Alckmin não como idéia ou prática, mas como tabu. O discurso do PT chegou a associar a crise energética de 2001 à privatização do setor elétrico – quando foram exatamente as geradoras de energia que permaneceram estatais. Enfim, valeu tudo.

O mais interessante é ver agora o que o governo Lula está fazendo com o Estado, ou seja, com o que “é nosso”.

A criação pelo presidente de mais de 600 novos cargos de confiança, e o reajuste de até 140% por ele concedido a essa categoria de servidor – que abriga os afilhados políticos – é uma forma muito peculiar de fortalecer o Estado.

Lula ampliou o número de ministérios, criou pérolas como aquela Secretaria da Pesca, enfim, deu o devido banho de loja na burocracia para multiplicar seus cabides. Principalmente, os cabides providenciais, que são os tais cargos de confiança. A qualquer momento eles podem tirar do sereno um aliado derrotado ou um amigo carente. Como se sabe, não há moeda política mais valiosa que o combate ao desemprego dos puxa-sacos.

O Brasil festeja o superávit primário recorde de abril. Foram 23,4 bilhões de reais economizados na contabilidade pública. Esse é o outdoor de uma economia cujo risco se reduz a cada dia no mercado internacional. Viva as aparências.

Olhando de perto, o perfil desse superávit tem, numa ponta, uma carga de impostos também recorde – e insustentável no momento em que a economia global se contrair. Na outra ponta, tem-se o gasto público crescente e descontrolado, sem qualquer preocupação com espirais explosivas como a Previdência e o inchaço da máquina.

Previdência é investimento social, consola o governo. Inchaço da máquina é fortalecimento do Estado. Poderiam dizer também que rasgar dinheiro é entretenimento popular.

No Brasil de hoje, tudo é festa. O irmão do presidente da República faz lobby descaradamente em nome dele, e nem é indiciado. Os fundos de pensão fazem estatais como o Banco do Brasil atuar ostensivamente em favor de interesses políticos e partidários, e ninguém liga. Um diretor do BB entra na guerra suja da compra de dossiê contra adversários do PT e a Justiça se cala. Não há dúvida, liberou geral.

A idéia da responsabilidade fiscal virou um panfleto, como qualquer outro desses que o PT imprime em série. A política de superávit, que Palocci teve que rebolar para contrariar o partido e manter, está montada em pés de barro. Da racionalização dos gastos públicos, da reforma do Estado, único caminho verdadeiro para a responsabilidade fiscal a longo prazo, não há nem sinal.

A equação é clara. O aumento de impostos serve a um governo perdulário, generoso com os apadrinhados, e mais especificamente ao partido do presidente, principal cliente dos cargos de confiança – cujos ocupantes são obrigados, inclusive, a descontar um percentual de seus ganhos em favor do partido.

Mas o que vale é o símbolo, a mística e a bonança econômica. Ninguém parece interessado em discutir agora essa herança maldita. Só quando ela for herdada. Mas aí será tarde demais.