domingo, dezembro 25, 2005
José Galló
Discurso de José Galló
das Lojas Renner, ao agradecer o título de Personalidade de
Vendas do Ano, recebido da ADVB, em 21 de novembro de 2005.
Senhoras e senhores.
Caros amigos.Boa noite.
Quero cumprimentar
as empresas vencedoras do Top de Maketing 2005 da ADVB e parabenizar
o empresário Jorge Gerdau Johannpeter pelo troféu Peter Drucker.
Sinto-me lisonjeado
com a distinção que a ADVB me oferece - Personalidade
de Vendas do Ano. Devo confessar que a deferência me encheu de
orgulho e me fez pensar muito.
Como personalidade
de vendas, o que gostaria de vender para vocês?
Diante do panorama
inquietante do país - da grande falta de valores, miséria,
violência e indecência na política - vislumbro uma
única reação possível e urgente: apostar
nos princípios e valores que pautam nossas vidas pessoal e
profissional, hoje suplantados por atitudes e práticas
distorcidas.
Nós não
compactuamos com essa realidade. Precisamos e devemos mudar. É
isso que quero vender hoje aqui: Um artigo que anda escasso no
cotidiano brasileiro, valores fundamentais que nos fazem falta, pois
dão sustentação à verdadeira democracia.
Como vivemos em um
país imenso e temos muitos "Brasis", precisamos ter
um mínimo de valores comuns - como ética, decência,
veracidade, honestidade, justiça - para estabilizar nosso
presente e construir um futuro digno para todos.
Quais os valores da
sociedade em que vivemos? Como se distinguem?Parece que já
não sabemos diferenciar valor de contra-valor na sociedade
permissiva e passiva de hoje.
O aviltamento dos
padrões éticos, a falta de legitimidade das
instituições e sua crescente deterioração
e a falta de punição aos que legitimam os
contra-valores minam e paralisam nossa capacidade de reação.
Estamos todos
anestesiados.Mas se quisermos - e queremos, com certeza - viver em um
país sério e justo precisamos nos impor e restaurar
nossos valores.Liberdade, justiça,
honestidade, ética, respeito, transparência, dignidade,
bem estar social. São valores.Injustiça,
desonestidade, deslealdade, oportunismo, corrupção,
esperteza. São contra-valores.
Quem vai ganhar esta
batalha?
A crise política
brasileira dos últimos meses é a maior prova de que
vivemos uma carência enorme de valores.
Fatos recentes
evidenciam que perdemos o bom senso e a noção de
justiça e de ética.
Os escândalos,
a corrupção, o mau uso de verbas e o comportamento de
muitos homens públicos geram ainda mais incertezas.
Dora Kramer,
articulista do jornal O Estado de São Paulo, comentou em 22 de
outubro a decisão do Supremo Tribunal Federal de soltar Paulo
e Flávio Maluf. O que mais a intrigou foi a declaração
do ministro Carlos Velloso que " ficou sensibilizado pelas
precárias condições em que pai e filho estavam
presos".
Delegacias e
penitenciárias estão cheias de homens e mulheres que
cumprem pena em péssimas condições. Por que o
sofrimento dos Maluf comove mais?É bom lembrar
ao ministro que esse pai, Paulo Maluf, é investigado pelo
desvio de um bilhão de dólares do país, ou 2,5
bilhões de reais, dinheiro público que daria para
construir mais de 150 hospitais e salvar milhares de vidas.
Se cada um desses
hospitais atendesse 200 pessoas por dia, 10 milhões de pessoas
seriam beneficiadas anualmente.
Em editorial de 21
de outubro, O Estado de São Paulo comentou o comportamento do
presidente do Supremo Tribunal Federal durante a votação
do pedido de liminar para a suspensão do processo de cassação
aberto contra o deputado e ex-ministro José Dirceu, no
Conselho de Ética da Câmara dos Deputados.
Segundo o editorial,
o presidente do Supremo conduziu os trabalhos "como se estivesse
tocando uma câmara de vereadores interiorana, forçando
seus membros a votar de acordo com os interesses que, por algum
motivo, queria preservar". Foi arrogante, ríspido e
preconceituoso com os demais ministros,"furtando-se a quaisquer
considerações de natureza jurídica”.
Que estranhos
valores são esses! Onde fica a justiça dos homens, o
discernimento e o respeito pelo direito do outro?
A rotina de
escândalos, que culminou com a descoberta do mensalão,
escancarou as inúmeras negociatas entre governos, partidos,
empresas públicas e privadas.
Deputados e senadores, eleitos por nós,
nossos representantes no Parlamento, trocaram sua dignidade e a
confiança dos eleitores pela mercantilização da
sua posição política - favores, apadrinhamentos,
cargos. Tudo com o fim de garantir a permanência no poder. O
que mais espanta é que não se constrangem ao assumir a
compra de votos e o caixa 2. Até declaram que poderiam ter
resolvido as dívidas passadas ou fazer caixa para campanhas
futuras com os fornecedores do Ministério onde atuavam, mas
preferiram procurar o tesoureiro do partido. Assim fez o ex-ministro
dos Transportes, Anderson Adauto. Admitiu suas "malfeitorias"
e deixou explícito que esse tipo de crime é recorrente,
faz parte dos usos e costumes. É praticamente uma prerrogativa
de um titular de pasta ministerial.
Diante da profusão
de atos ilícitos, já aceitamos barbaridades como fatos
banais. Estamos mesmo anestesiados!
De onde vieram os
milhões do mensalão que circularam por gabinetes, malas
e cuecas país afora?
Da sonegação,
do contrabando, da pirataria, do abuso de poder, da conivência,
do desvio, da impunidade, do "deixa pra lá". Da
ausência de valores!
Enquanto combatemos
as práticas irregulares que afrontam as leis no país,
como explicar que um produto pirateado - um filme em DVD - tenha
chegado ao avião do presidente da República? A
naturalidade com que convivemos com a pirataria mostra nossa
flexibilidade em relação ao crime. Falta seriedade no
combate ao mercado informal e aos vícios criminosos que
interferem na economia.
Falta ética
na concorrência, eficiência no gerenciamento das contas
públicas, no controle de gastos, na administração
de receitas e despesas. Essas práticas não combinam com
os avanços democráticos que conquistamos. Democracia
implica em leis funcionais, sem formalismos jurídicos nem jogo
de faz de conta, sem o já conhecido "jeitinho
brasileiro".
Não podemos
compactuar com a tese de que "sempre foi assim". Não
podemos minimizar a gravidade dos fatos e das acusações.
Para onde vão
os recordes da arrecadação federal? O Estado criado
para gerir e servir, recolhe milhões em impostos e não
devolve nada à população. Ele mesmo consome os
40% do PIB.
Não podemos
mais permitir os pequenos delitos que geram os grandes delitos.
Quando não exigimos nota fiscal, nos tornamos cúmplices
da ilegalidade que se instaurou no país. E se sonegamos, não
podemos exigir saúde, educação, trabalho,
produção, segurança, direitos básicos do
cidadão.
O que resta para os
milhões de jovens brasileiros que acompanham diariamente os
escândalos da política pela mídia? Que valores
nossos representantes no Parlamento transmitem a esses jovens ainda
em formação, estudantes ou recém chegados ao
mercado de trabalho?Que valores passam à
população do país?
É espantosa a
falta de austeridade em relação aos gastos públicos.
Levantamento do
jornal O Estado de São Paulo mostrou que o governo federal já
gastou mais de um bilhão de reais só com diárias
de viagens. Nos últimos dois anos, há casos de
servidores que receberam até 168 mil reais. Alguém pode
me explicar o motivo de tanta viagem?
Pois esse dinheiro
gasto na "farra das diárias" é cinco vezes
maior do que o orçamento do Ministério da Cultura para
este ano. 44 vezes maior do que o total investido no programa
Primeiro Emprego. Isso sem falar nas verbas que são desviadas
e nunca chegam ao seu destino.
Perdeu-se o respeito
pelo dinheiro público, arrecadado pelos inúmeros e
caros impostos pagos pela população e pelas empresas,
fruto do trabalho duro de milhões de brasileiros. Não
só pagamos impostos, mas ainda pagamos as despesas pelo
pagamento desses impostos e não sabemos exatamente o quanto
pagamos.
Há uma grande
ausência de princípios na forma de governar, de
gerenciar empresas e entidades e nas atitudes de muitos homens
públicos que detêm o poder político e econômico
nesse país.
Um governo, assim como uma empresa ou
uma entidade, precisa ter valores e projetos claros. O que pensar
quando dois senadores da República e um deputado federal
ameaçam "dar uma surra" no presidente do país?
A que ponto
chegamos, senhores!
Onde está o
decoro parlamentar e a dignidade de quem foi eleito para defender os
interesses da nação?
O que fazer quando o
ex-diretor de Marketing do Banco do Brasil - depois de receber 326
mil reais do valerioduto e gastar 70 mil reais na compra de mesas
para um show - envolve-se em outro escândalo: o uso do cartão
corporativo do Banco para pagar despesas com sites pornográficos
da internet? Esse mesmo diretor recebeu um envelope com mais de 300
mil reais e disse que não conferiu o conteúdo.
Já o
presidente do Banco Popular - destinado à prestar serviços
bancários para pessoas de baixa renda - conseguiu gastar mais
em publicidade - 24 milhões de reais - do que em empréstimos
ao povo – 20 milhões de reais.
Segundo a Revista
Veja de 26 de outubro, não nos falta polícia. Temos 322
policiais por grupo de 100 mil habitantes, enquanto que os Estados
Unidos tem 283. Não nos faltam juízes. Temos 7,73
juízes para cada grupo de 100 mil habitantes, enquanto que o
Chile tem 3,22 juízes para o mesmo número de
habitantes!
O que nos falta,
então?
Menos leis e mais
aplicação correta, ao invés de milhares de leis
que se sobrepõem e confundem a todos, propiciando o adiamento
de decisões, postergações, decursos de prazo.
No Brasil, as penas prescrevem e a
pessoa é declarada inocente, pois não é julgada
a tempo. No Brasil, vale a lei da impunidade. Falta eficiência
nas investigações, no julgamento dos processos, no
gerenciamento das políticas públicas.
A máquina
pública brasileira sofre de incapacidade gerencial. Os
gestores não conseguem gastar com eficiência o pouco
dinheiro que sobra para investimentos.
Em três anos
de governo Lula, a folha de pagamento do Legislativo cresceu 53,6%;
do Judiciário, 35,5%; do Ministério Público da
União, 45,2% e do Executivo, 27,8% - todos acima da inflação
acumulada de 24,5% ocorrida nesses três anos.
Fala-se muito na
redução de juros, mas pouco nas despesas do governo. A
ministra Dilma precisa saber que também é rudimentar e
indecente a maneira como o governo aumenta suas despesas, o que torna
os juros ainda maiores.
Os investimentos em
infra-estrutura e projetos econômicos e sociais dirigidos à
população ficaram abaixo de 1% do PIB entre 2003 e
2005. Mais um dos tantos sintomas que comprovam a ausência de
VALORES.
E nós,
cidadãos e empresários aqui presentes, como ficamos
diante disso?
Já nos
perguntamos que Brasil queremos?
Somos responsáveis
e temos que sair dessa passividade com urgência.Nós,
empresários, líderes, homens e mulheres de bem,
políticos corretos, trabalhadores que queremos viver em um
país digno precisamos de atitude. É hora de acordar
dessa isenção preguiçosa e assumir nossas
responsabilidades.
O Brasil somos nós.
É preciso
superar velhos e confortáveis hábitos que nos conduzem
pela mesma trilha e dizer o que ainda não se disse e precisa
ser dito. Quando deixamos de sonhar ou de ter esperança,sucumbimos
tanto na vida pessoal, como profissional ou coletiva. Cabe a nós
dar um basta à corrupção e à
ineficiência, práticas que só se expandem em
sociedades precárias e fracas.
A utopia está
tanto nos grandes movimentos sociais que a história conheceu,
como nos pequenos atos de cada um de nós, que podem mudar o
nosso Brasil.
Proponho uma
reflexão profunda e um trabalho incessante pela recuperação
dos valores que aprendemos com nossas famílias. Vamos expor
nossa revolta, nos transformarmos em verdadeiros agentes que podem
redimir este país. Não podemos deixar que os
contra-valores vençam esta guerra. O país que queremos
para nossos filhos e netos não é este.
Queremos um país
que gaste menos e onde todos paguem menos impostos; um país
que aplique bem os recursos arrecadados; que invista em saúde,
segurança, educação, geração de
emprego e no bem estar da população.
Um país que
não figure mais no 71o. lugar do ranking da Unesco em
educação. Um país que respeite sua gente!
Vamos levantar a
bandeira dos valores que aprendemos, eliminar os contra-valores,
voltar a sentir orgulho, divulgar as boas ações, as
boas práticas, os valores verdadeiros e fazer do Brasil um
país digno e justo, que traga futuro para todos nós.
Chega de tolerância,
virtude brasileira hoje tão permissiva. Não vamos
aceitar pequenos delitos, pequenas infrações, pequenos
roubos, pequenas corrupções e pequenos desvios que
insuflam os grandes e são alimentados pelo tradicional
"jeitinho brasileiro", que acha solução para
tudo.
Não há
meio termo quando a questão é ética. Ou se é
honesto ou não se é honesto.
Como cidadãos,
somos agentes da mudança. E a mudança está em
dizermos não aos agentes dos contra-valores.
Confiante na minha
capacidade de venda, com a certeza de que vendi o produto VALOR e
encontrei eco em cada um de vocês, finalizo lembrando um artigo
do escritor baiano João Ubaldo Ribeiro.
"Somos a
matéria prima desse país e temos muitas coisas boas,
mas nos falta ainda muito para sermos os homens e mulheres que nosso
Brasil precisa. Esses defeitos, essa ESPERTEZA BRASILEIRA congênita,
essa desonestidade em pequena escala, que depois cresce e evolui até
converter-se em casos de escândalo, essa falta de qualidade
humana, real e ruim, tem que acabar".
A responsabilidade é
de todos nós!
Boa noite!
José Galló,
CEO das Lojas Renner
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3 comentários:
Não pode mesmo haver meio-termo, tolerância zero para com os pequenos delitos, inclusive conosco. Depois disso o restante virá naturalmente.
�tica !
vem da educa��o; quantas gera��es que precisamos !..
Estamos de uma mar� de azar; saimos de uma ditadura para chegar o mobral. Mobral foi o pior instrumento do Brasil.
O resultado.
Mobral foi editado em 67, e implantado em 71. Temos quase 35 anos de alfabetizados sem educa��o. Sabem abrir seus computadores, conhecem a marca dos carros e todos os nomes dos artistas globais. Mas n�o foram educadas. S�o 2 gera��es, cristalizando .....tenho ate medo em pensar no nosso futuro.
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