sábado, junho 25, 2005

justiça (ou injustiça?)


Hamilton
Naki, um sul-africano negro de 78 anos, morreu no final de maio. A
notícia não rendeu manchetes, mas a história
dele é uma das mais extraordinárias do século
20. “The Economist” contou-a em seu obituário desta
semana.Naki
era um grande cirurgião. Foi ele quem retirou do corpo da
doadora o coração transplantado para o peito de Louis
Washkanky em dezembro de 1967, na cidade do Cabo, na África do
Sul, na primeira operação de transplante cardíaco
humano bem-sucedida. É
um trabalho delicadíssimo. O coração doado tem
de ser retirado e preservado com o máximo cuidado. Naki era
talvez o segundo homem mais importante na equipe que fez o primeiro
transplante cardíaco da história. Mas não podia
aparecer porque era negro no país do apartheid.O
cirurgião-chefe do grupo, o branco Christiaan Barnard,
tornou-se uma celebridade instantânea. Mas Hamilton Naki não
podia nem sair nas fotografias da equipe. Quando apareceu numa,
por descuido, o hospital informou que era um faxineiro. Naki usava
jaleco e máscara, mas jamais estudara medicina ou cirurgia. Tinha
largado a escola aos 14 anos. Era jardineiro na Escola de Medicina da
Cidade do Cabo. Mas aprendia depressa e era curioso. Tornou-se o
faz-tudo na clínica cirúrgica da escola, onde os
médicos brancos treinavam as técnicas de transplante em
cães e porcos. Começou limpando os chiqueiros. Aprendeu cirurgia
assistindo experiências com animais. Tornou-se um cirurgião
excepcional, a tal ponto que Barnard requisitou-o para sua equipe.Era
uma quebra das leis sul-africanas. Naki, negro, não podia operar
pacientes nem tocar no sangue de brancos. Mas o hospital abriu uma
exceção para ele.Virou um cirurgião, mas clandestino. Era o melhor,
dava aulas aos estudantes brancos, mas ganhava salário de técnico de
laboratório, o máximo que o hospital podia pagar a um negro. Vivia num
barraco sem luz elétrica nem água corrente, num gueto da periferia.
Hamilton Naki ensinou cirurgia durante 40 anos e aposentou-se com uma
pensão de jardineiro, de 275 dólares por mês. Depois que o apartheid
acabou, ganhou uma condecoração e um diploma de médico honoris causa.
Nunca reclamou das injustiças que sofreu a vida toda.

(enviado por Ronaldo para os Orfãos)

11 comentários:

Graca Almeida disse...

Que história fantástica, César ! Isso nunca foi divulgado antes...
Que descanse em paz, paz merecida.

Wilma Ruas disse...

Esta história tem muito a nos ensinar, de vocação, abnegação, preconceito, dedicação, de justiça e injustiça, enfim uma verdadeira história que para muitos não vale a pena ser divulgada, não dá ibope.
Bjs
Wilma

Sonia SantAnna disse...

Por que essa história nunca foi divulgada? Não que eu saiba, é a primiera vez que ouço falar nisso.

Sônia ... disse...

bah!
Fiquei de cara...não conhecia a historia tambem
:)

Ricardo C. disse...

É mais uma dessas histórias para envergonhar a humanidade -- apesar do gesto do Barnard --, né?
Bom conhecê-la.
Abraços

Murillo Paiva disse...

é incrível que na metade final do século XX ainda acontecessem coisas assim no mundo!

Marcia Lahtermaher disse...

Ecos terríveis do apartheid; tomara que jamais aconteça novamente. Que história! Penasndo bem, deve haver muitas outras...
bjs, Marcia L

Cy Freeney disse...

Infelizmente Martha, coisas como o apartheid na africa do Sul e a segregação nos EUA, vão ecoar ainda por muitos e muitos e muitos anos. Por que embora esses regimes tenham caído, a cultura que os criou, e alimentou, esta viva e passando bem, obrigada.
Só mudou de roupa e retocou a maquiagem, que é pra ninguém perceber que é a mesma, velha estupidez humana.
Sáo necessárias muitas gerações para se erradicarem preconceitos, por que são coisas fundadas no medo primal do ser humano de todos os que são diferentes.
Ainda tem coisa muito parecida, se não pior, acontecendo no mundo HOJE.

XXXX YYYY disse...

Somos uma espécie muito estranha.

Alvaro Albuquerque disse...

Sempre que leio uma estoria como esta, fico me perguntando quao longe esse iluminado poderia ter chegado, se nao tivesse encontrando tantas barreiras. Ao mesmo tempo nao consigo deixar de pensar que talvez so tenha chegado tao longe, exatamente por conta dessas dificuldades.Sua vontade de superacao deveria ser sua forca motriz. Quantas vezes, ao encontrarmos facilidades, acabamos nos acomodando, e deixamos de conhecer todo nosso potencial.

Solange Hoffmann disse...

Uauu! que história!!!
Fiquei sem ar.
beijos,
SOL